domingo, setembro 21, 2014



Ontem saí pra ver o mar sob um céu sem estrelas.
Após uma longa caminhada, retornei para "casa" lá pelas 4 da manhã.
Especialmente nessa noite, me senti estranhamente a vontade andando tanto e pegando o estranho barco de um ano atrás. 
Um choro de bebê atravessou o silêncio da madrugada. Desesperador. A criança deveria ter poucos dias de vida. No colo da mãe, acompanhada do marido. Fazia um frio desproporcional e o nenem desagasalhado. O pai não parava de jogar baforadas de cigarro na cara do recém nascido e eu nem disfarcei que prestava atenção. A moça, nova até, estava toda atolada com a mochila pesada e pedia pela mamadeira do bebê. O rapaz entra no barco, procura por dois segundos, a mamadeira do próprio filho e grita: "NÃO CONSIGO ENCONTRAR, NÃO! PROCURA VOCÊ! NENEM MAL HUMORADO DO CARAMBA!". O nenem chorava tanto, a situação foi tão constrangedora para a mulher... Fiquei transtornada! A moça com a mochila aberta, todas as coisas quase caindo na água.
Isso mexeu tanto comigo! Como um homem pode tratar uma mulher assim, sua esposa, seu próprio filho? Como o ser humano tem se tornado extremamente egoísta, arrogante e de atitudes tão monstruosas? Assim como eu reparava toda aquela situação, todos olhavam perplexos. Não rolou agressão, mas não é só com tapas e socos que se consegue ferir alguém. As palavras doem bem mais, acertam em cheio. Não consigo parar de pensar em como aquela mulher se sente desamparada e o tanto de humilhações que deve sofrer todos os dias. Parecia algo tão natural, em nenhum momento, ela respondeu à altura. Parecia extremamente cansada e profundamente magoada. É aí que todas as mulheres se reconhecem um pouco. Isso tudo independe do quão forte é o ser humano, somos humilhadas até mesmo por estranhos na rua, por "amigos" que nos enxergam como inferiores ou como flertes obrigatórios pra passar o tempo. Não suportaria viver junto de alguém que não olhasse para mim todos os dias com olhos de respeito, que me defendesse até mesmo da ideia, da maldita ideia que qualquer um pudesse ter sobre querer me ridicularizar, me humilhar. Acho mesmo que acredito num amor paciente e amigo, acima de tudo. Não existe mulher fraca e submissa, existe um coração torturado demais pra se levantar. Desolado demais pra seguir em frente. Ser cúmplice de alguém é tão difícil, tantos defeitos e diferenças somadas. Eu não nasci pronta. Na verdade, eu nasci ontem! Eu nada sei sobre nada, mas odiaria vir a ser alguém que esmaga o sonho dos outros ou quem tem o ideal de "coletivo", fazer par: Cabeça e umbigo.
Até posso dizer que tive sorte nos meus encontros, mas me conhecer foi fundamental.
Hoje, luto por um futuro livre de machismos e até mesmo de "achismos" sobre o que é bom para a mulher.
Que todos tenham a sorte de um amor tranquilo, mas se não for possível, duas doses de amor próprio.
Teu corpo é a tua casa. Cuida-te.

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