sábado, outubro 25, 2014

Minha contribuição para: Fatos de uma semana utópica.








Entre a passarela seis e a sete da av Brasil, há uma outra recém construída, ainda de madeira. Depois de muitos túneis, desci junto a um multuado de gente exatamente nesse ponto.
Esperei aquele "bolo" todo atravessar, respirei, e me agarrei ao primeiro indício de impulso. Não seria novidade alguma, ter que admitir que sou meio apavorada quando o assunto é altura.

Completando a escada de acesso, cheguei ao topo com um absurdo desconforto. (Tenho excessos no desenrolar dos fatos, vocês bem sabem! Parece tagarelice, mas a verdade é que em algum momento nessa vida, desejo ser cronista. E como dizia Clarice: "Eu tenho o direito ilanienável de me auto alienar".
Tracei roteiro pelo meio, seguindo pelo alicerce principal, mas a cabeça não parava de martelar: "É nessa hora exata em que resolvi atravessar por aqui, que essa porra irá cair! Aposto! Que é pra ilustrar bem a minha vidinha, que é pra eu me sentir acertada em cheio!"

Todo mundo que passava, perdia os olhos naquele corpo pálido, agora tendendo para a esquerda, com as mãos apoiadas nas grades, atordoada com a sensação das tábuas levantarem até uma certa altura quando tocadas pela sola dos pés na outra extremidade, e o barulho que isso fazia. Quase consegui fazer com que todos partilhassem do mesmo desespero, mas acabei sozinha. Quem dera eu fosse mais dramática, ou quem dera, meu drama ser mais convincente.
De súbito, me recordei de todas as situações em que me vi insegura: A mão que me queimara num "passar de roupas". A mãe que me deixara aos oito;
O grito do apático e o silêncio do subversivo. Carros na rua, em velocidade baixa, beirando a calçada, depois das onze.
Uma vez, perder voce; Nao fazer parte do rítmo dos românticos; Guardar minhas fotografias em pedacinhos minúsculos de computador e a possibilidade de perdê-las no menor dos descuidos; Telefonemas de madrugada, noticiando algo ruim; Ter que ligar coisas à tomadas, passar por escadas sem corrimões; Descer um escorrego sentada e de frente. Estar sozinha num vagão de trem a qualquer hora do dia; Olhares fixos por mais de 2 segundos; Jogos de azar.
Muitas promessas; nenhuma promessa; Pessoas perceberem que eu estava presente enquanto faziam algo de errado; O desvio de olhar, mirando o chão, milésimos de segundos após responderem uma pergunta minha; Enfiar a mão em um cano.
Lugares cheios demais; esquinas; travessias.

E tábuas que ligam um ponto a outro sobre lugares acima de um metro!

E estava bem ali, congelada.
Eu, que evitava reparar nas frestas entre as lascas de madeira: Travei na metade do fim justamente por notar que elas estavam cada vez maiores.
Fechei os olhos.
Que tolice. Por que não dou seguimento ao impulso que me atingiu no começo? Quanta paranóia! É só isso!

Ainda segurando a grade, me virei cuidadosamente. E como quem tinha errado o sentido: Zona Oeste x Zona Sul, voltei o caminho percorrido. Não errei o sentido. Perdi todo ele. Se é que algum dia o tive, nunca durou muito tempo.
Agora escrevo como quem tomou a egoísta decisão de só fazer o que trouxer a vazia sensação de completa segurança.
E chego à triste conclusão, ao menos momentânea, de não poder mais superar os limites da minha natureza.

Parece humildade, mas tá mais pra uma validação da mediocridade dessas últimas semanas.

Nenhum comentário: